Campo em Debate: por que o arroz perdeu espaço no prato e os caminhos para recuperá-lo
Preço não é o problema, diz quem acompanha a cadeia econômica
(Por Giane Guerra/ Zero hora) Ainda que a população tenha crescido, o consumo de arroz caiu. Em uma década, o recuo foi de 13% no país. Obviamente isso preocupa a cadeia do grão, cuja produção o Rio Grande do Sul lidera no país. Mérito do setor é expor a situação e provocar o debate para engajar por uma solução, como mais uma vez a Federação das Associações dos Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) fez no Campo em Debate, na Casa RBS, na Expointer.
Gerente de Marketing da Basf, Graziela de Morais trouxe um diagnóstico. O que entrou no prato do consumidor? Massa, batata e outros legumes, apontou pesquisa. Tudo certo. Tirando ultraprocessados, que nem deveriam ser chamados de alimentos, é bom ter espaço para todas as comidas.
— O arroz perdeu espaço, mas segue essencial. Só que deixou de ser uma opção automática com o feijão. Precisamos fazer com que o consumidor volte a escolher o arroz — analisou ela.
Um novo estilo de vida quis mais praticidade. Não é um problema exatamente do arroz. Aliás, é um obstáculo mais do feijão, que demora para cozinhar. Mas a queda de consumo do feijão puxa sempre a do arroz. Não surpreende. São parceiros ancestrais no prato brasileiro.
Com a autoridade de quem conhece o consumidor porque trabalha com a “barriga na prateleira”, o presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), Lindonor Peruzzo Júnior, sugeriu diversificar, agregar, fazer produtos “premium”, adicionar proteína e comunicar isso.
— O problema do arroz não é preço. O quilo está R$ 3,30. Se voltar aos R$ 5 da pandemia, não vai cair volume de consumo. É o carboidrato mais barato que temos — foi taxativo. — E tem outros produtos, farinha de arroz, biscoito de arroz… — provocou.
Quem faz isso é a Josapar, dona do Tio João. Está com 120 produtos de arroz, vende em todos os Estados. O maior mercado consumidor é o Rio de Janeiro, contou o gerente comercial regional Sul, Daniel Ziemer Santanna.
Outra curiosidade: o saco de cinco quilos é mais vendido para famílias do Interior, que cozinham mais em casa. A maior concorrência do arroz está no bufê do restaurante e no delivery (telentrega) de comida.
— As famílias estão almoçando e jantando menos juntas – diz Ziemer.
A nutricionista Cris Zinelli se mostrou otimista com a possibilidade de o arroz retomar espaço com um resgate da alimentação de gerações anteriores com “comida de verdade”. Porém, ponderou que há a barreira da onda nutricional contra carboidratos que, por muitos anos, taxou o arroz de “caloria vazia”, ainda mais com o avanço das canetas emagrecedoras.
E o presidente da Federarroz, Denis Nunes, estava atento às provocações. Ficou, inclusive, animado com a quantidade de ideias. Também garantiu que o setor está atento a outros mercados para o arroz, como a produção de biocombustíveis. O etanol de arroz é uma aposta, especialmente para produção de SAF, querosene verde para aviões. A transição energética na aviação é política pública em vários países.


