Descoberta inédita no Maranhão pode ajudar no controle natural de pragas do arroz
Pesquisadores da Uema registram pela primeira vez no Brasil a atuação do percevejo predador Andrallus spinidens em lavouras de arroz, abrindo caminho para estratégias mais sustentáveis no campo.
(Imirante.com) – O Maranhão está no centro de uma descoberta inédita para a Entomologia brasileira. Pesquisadores da Universidade Estadual do Maranhão (Uema) registraram pela primeira vez no país a ocorrência do percevejo predador Andrallus spinidens em lavouras de arroz, um achado que pode representar um avanço importante no controle biológico de pragas agrícolas.
A descoberta ocorreu no município de Itapecuru-Mirim durante a safra 2021/2022 e foi publicada recentemente na revista científica Entomological Communications. O estudo foi coordenado pela professora doutora Joseane Rodrigues de Souza, líder do grupo de pesquisa “Controle bioecológico de percevejos fitófagos nas culturas do arroz e da soja no Estado do Maranhão”, desenvolvido em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O trabalho, intitulado “First report of Andrallus spinidens Fabricius (1787) (Hemiptera: Asopinae) in rice crops in Brazil”, identificou exemplares adultos da espécie predando lagartas de Mocis latipes, uma das principais pragas desfolhadoras do arroz e responsável por prejuízos significativos à produção agrícola.
Controle natural de pragas
Segundo os pesquisadores, o registro reforça o potencial do uso de inimigos naturais no manejo integrado de pragas. A presença do percevejo predador pode contribuir para reduzir a população da lagarta de forma natural, diminuindo a necessidade de aplicação de defensivos agrícolas e favorecendo uma produção mais sustentável.
Para a professora Joseane Rodrigues de Souza, o estudo representa uma contribuição relevante para o fortalecimento do controle biológico no Brasil.
“Registramos pela primeira vez no Brasil o percevejo predador Andrallus spinidens atuando no controle biológico natural da lagarta desfolhadora Mocis latipes em lavoura de arroz no município de Itapecuru-Mirim. A espécie-praga causa danos significativos às lavouras de arroz no Maranhão, e esse registro amplia as perspectivas para o manejo sustentável da cultura, contribuindo para a redução natural das populações da praga e para o equilíbrio ecológico do agroecossistema”, destacou a pesquisadora.
Pesquisa realizada em Itapecuru-Mirim
A coleta dos insetos foi realizada em uma área de um hectare de arroz localizada no Assentamento Cristina Alves, na Vila 17 de Abril, em Itapecuru-Mirim. O plantio ocorreu em dezembro de 2021, e as amostragens começaram 25 dias após a emergência das plantas.
As avaliações foram realizadas semanalmente, seguindo um percurso em zigue-zague por toda a área cultivada até o fim do ciclo reprodutivo da cultura. Durante o monitoramento, os pesquisadores identificaram dez exemplares de Andrallus spinidens.
Após a coleta, os espécimes foram enviados para identificação taxonômica na UFRGS. O material também foi incorporado à Coleção Entomológica Iraci Paiva Coelho (CIPC-Uema), vinculada ao Curso de Agronomia da universidade em São Luís.
Participação de estudantes e pesquisadores
A pesquisa foi conduzida pelo estudante de Agronomia Matheus H. F. Lima, bolsista voluntário do Programa Institucional Voluntário de Iniciação Científica (PIVIC/Uema), sob orientação da professora Joseane Rodrigues de Souza.
O estudo contou ainda com a participação dos estudantes Roberto S. Graça Júnior, Ellen C. C. de Aragão, Alaide P. Lima, João V. S. Camara, Pedro L. E. R. Cardoso e John J. S. Ausique, além dos especialistas em taxonomia de pentatomídeos da UFRGS Jocélia Grazia, Lurdiana D. Barros e Ricardo Brugnera.
Possível registro histórico no Brasil
Além do achado no Maranhão, os pesquisadores relataram a existência de um exemplar coletado em 1981, em Roraima, cuja etiqueta continha as informações “Roraima”, “15/09/1981”, “Alfredo” e “Rice”.
Embora esse material possa representar um registro histórico anterior da espécie em território nacional, os cientistas afirmam que ainda não é possível determinar com precisão a origem do inseto no Brasil, seja por ocorrência natural, introdução acidental ou processo migratório.
O que é o Andrallus spinidens?
O Andrallus spinidens pertence à subfamília Asopinae, grupo formado por percevejos predadores que se alimentam de outros insetos. A espécie possui hábito polífago, ou seja, pode predar diferentes organismos, incluindo lagartas, besouros e himenópteros.
Com registros em regiões tropicais e temperadas quentes ao redor do mundo, o inseto agora passa a integrar a lista de pentatomídeos predadores encontrados em arrozais maranhenses e brasileiros.
Os pesquisadores apontam indícios de que a espécie esteja estabelecida em Itapecuru-Mirim e recomendam o monitoramento contínuo das áreas de cultivo para ampliar o conhecimento sobre seu papel no controle biológico de Mocis latipes e de outras lagartas que atacam as lavouras de arroz.


