Fronteira da genética fez do Brasil uma potência do arroz
O arroz brasileiro passa por uma revolução silenciosa e transformadora. Nas últimas quatro décadas, a produção de grãos provenientes de áreas irrigadas mais que dobrou, sem expansão da área plantada. A produtividade média das lavouras irrigadas cresceu cerca de 90% desde o início da década de 1990, resultado de investimentos contínuos em pesquisa e do avanço dos programas nacionais de melhoramento genético, sobretudo os públicos, que se consolidaram como pilares desse progresso.
Na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o programa MelhorArroz, que celebra 50 anos na safra 2025/26, acumulou ganho genético de cerca de 2 t/ha nos últimos 20 anos, com avanços em qualidade de grãos e benefícios para produtor, indústria e consumidor. Na prática, isso se traduz, para o produtor, em maior produtividade de grãos inteiros por hectare e ampliação da janela de colheita. Para a indústria, significa mais grãos de elevada qualidade, com alta translucidez e percentuais de inteiros superiores a 62%, ampliando o rendimento industrial e fortalecendo arrozes premium. Para o consumidor, o resultado aparece em melhor qualidade sensorial após a cocção, com grãos mais soltos, macios e saborosos.
Produtividade não mais como fim
O cenário atual exige que o melhoramento vá além. A métrica isolada de produtividade por área já não basta. Sendo o arroz um cereal base da alimentação, dificilmente terá preços elevados por longos períodos; a rentabilidade depende da redução dos custos por quilo produzido. O sucesso de uma cultivar passa a ser medido também pelo modo como produz e pelo que entrega ao consumidor. A produtividade torna-se consequência de uma genética que contribui para um sistema equilibrado e eficiente.
Com essa visão, há pouco mais de quatro anos, o norte estratégico do programa MelhorArroz foi ressignificado, alinhando os objetivos de cada cruzamento genético para elevar a rentabilidade e a sustentabilidade ambiental. Em exercício de abrangência nacional, especialistas de 10 unidades da Embrapa, utilizando o método Analytic Hierarchy Process, identificaram e priorizaram quase 90 gargalos críticos da orizicultura, com destaque para a matocompetição (arroz-daninho e plantas resistentes a herbicidas), a sanidade vegetal, especialmente a brusone (Magnaporthe oryzae), a ecoeficiência (uso racional de água e nitrogênio, redução do impacto de resíduos químicos) e as mudanças climáticas (tolerância a extremos de temperatura e diminuição das emissões de gases de efeito estufa).
Seleção sob pressão para acelerar a evolução genética
Para enfrentar esses desafios, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) concentrou a base do programa de melhoramento de arroz irrigado na região tropical, considerada ambiente mais desafiador devido à maior incidência de estresses bióticos, como a brusone, e abióticos. Ao conduzir experimentos nessas condições, acelera-se a evolução do germoplasma frente às futuras demandas de produção. Essa estratégia é combinada à adoção de práticas de manejo mais sustentáveis, como a irrigação intermitente em substituição à inundação contínua. O melhoramento busca cultivares capazes de tolerar a flutuação hídrica, reduzindo o consumo de água e as emissões de metano, sem comprometer a produtividade.
No caso da brusone, a seleção sob alta pressão na região tropical tem se mostrado determinante. A exposição do germoplasma a um espectro amplo e agressivo de raças do fungo garante que apenas linhagens com resistência durável avancem. O emprego de base genética ampla, combinando múltiplas fontes de resistência, é a principal estratégia para reduzir a vulnerabilidade genética. Em áreas comerciais do Tocantins, a adoção dessas cultivares resultou em redução de quase 50% nas pulverizações com agrotóxicos, reforçando a resistência à brusone como um pilar da sustentabilidade ambiental e econômica da cultura.
O futuro imediato e a próxima década
O próximo salto do melhoramento genético passa pela integração entre biotecnologia avançada, inteligência artificial e big data. Um dos eixos centrais é a genética de arroz voltada à ecoeficiência, especialmente no uso do nitrogênio, insumo que responde por mais de 20% dos custos de produção. Nesse contexto, ganha força a estratégia de melhoramento holobionte, com potencial para atuar diretamente sobre o custo do nitrogênio sintético.
Ao selecionar genótipos “bons hospedeiros” para bactérias diazotróficas, eleva-se a eficiência de uso de nitrogênio via fixação biológica. Para isso, o melhoramento de plantas e de microrganismos deve andar junto, pois estão intrinsecamente ligados em sistemas agrícolas sustentáveis e eficientes. O futuro aponta para sementes geneticamente aprimoradas para interagir com bioinsumos específicos, reduzindo a dependência de insumos químicos. Tecnologias como o arroz híbrido e a edição gênica com Crispr ganham protagonismo, permitindo “design” genético de precisão, protegendo novos “traits” e encurtando o tempo de desenvolvimento de cultivares com maior potencial produtivo e resistência a herbicidas ainda não seletivos à cultura do arroz.
A capacidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em biotecnologia é um diferencial estratégico. Ferramentas como o chip de DNA Embrapa MULTI66K, desenvolvido para 27 espécies, com 4.278 SNPs para o arroz, permitem seleção assistida por marcadores moleculares com alta precisão, acelerando a conversão de linhagens para tecnologias como a Clearfield® da Basf e colocando o melhoramento genético brasileiro entre os mais avançados do mundo.
Do ponto de vista de produto, a diversificação é central. O desenvolvimento de um portfólio brasileiro de grãos especiais, voltado a outras culinárias e às tendências globais de alimentação, exige esforço de melhoramento orientado a atributos industriais, culinários e sensoriais. Na Embrapa, isso já se traduz em cultivares como a BRS 358, para a culinária japonesa, e as BRS 901, BRS 902 e BRS AS707, de pericarpos vermelho e preto, voltadas a alimentos com compostos bioativos. Esses produtos podem ampliar o consumo interno, fortalecer a conexão entre gastronomia e produção regional e abrir oportunidades em mercados internacionais de maior valor agregado.
Outra frente promissora é o uso do arroz como matéria-prima para o etanol, solução estratégica para absorver excedentes do próprio arroz agulhinha consumido no Brasil. A Embrapa respondeu a essa demanda em 2015, com a cultivar BRS AG (“arroz gigante”), voltada à produção de etanol e à alimentação animal. No Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 70% da produção nacional, essa alternativa poderia destravar o elevado potencial produtivo do estado, hoje limitado pelos baixos preços da saca, caso cresça a demanda pelo uso do arroz para diferentes finalidades.
Um portfólio que conta a história da inovação
Os programas de melhoramento de arroz no Brasil têm oferecido um mosaico de soluções genéticas. A trajetória das cultivares da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) lançadas na última década mostra como cada inovação respondeu a desafios específicos e evidencia o esforço em combinar maior potencial produtivo com resiliência fitossanitária e climática. Em 2016, BRS Catiana e BRS Pampeira estabeleceram um novo patamar de adaptabilidade nacional, aliando alto desempenho produtivo a excelente qualidade industrial e culinária, com a característica “stay green”, maior tolerância ao acamamento e resistência genética às principais doenças.
Em 2019, a BRS Pampa CL marcou a incorporação da tecnologia Clearfield® à BRS Pampa, referência em qualidade de grãos premium e alto potencial produtivo entre cultivares precoces, tornando-se a cultivar mais plantada do portfólio da Embrapa e a segunda no Rio Grande do Sul. A partir de 2021, o portfólio ganhou robustez com a BRS A704, que reúne ampla base genética para resistência à brusone, com 14 fontes distintas, além de elevada tolerância ao acamamento. Em 2022, a BRS A705 estabeleceu um novo patamar de estabilidade no rendimento de grãos inteiros, oferecendo maior flexibilidade de colheita, e a BRS A706 CL ampliou o alcance da tecnologia Clearfield® ao combinar resistência a herbicidas com a ampla adaptabilidade da BRS Catiana, tornando-se a segunda cultivar mais plantada da Embrapa, com tendência a superar a BRS Pampa CL.
As aadições mais recentes focam nas mudanças climáticas e na maximização do teto produtivo. A SCSBRS126 Dueto, lançada em 2023 em parceria com a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), destaca-se pela tolerância a extremos de frio e calor na fase reprodutiva, reduzindo a esterilidade das espiguetas. Em 2024, a BRS A709 consolidou o topo da genética da Embrapa, com potencial produtivo de 16,1 t/ha e alta translucidez de grãos, atendendo às exigências do mercado de arroz branco polido. A partir de 2027, estão previstos lançamentos de mais duas cultivares Clearfield®, uma de ciclo médio e outra de ciclo curto, derivadas da BRS Pampeira e da BRS A705, ampliando o portfólio com maior potencial produtivo, elevada qualidade de grãos, estabilidade no rendimento de grãos inteiros e maior resiliência em diferentes ambientes de arroz irrigado do país.
Esse percurso mostra que o Brasil tem mais do que um mosaico de cultivares: consolidou programas de melhoramento genético do arroz que garantem segurança alimentar e competitividade internacional, com capacidade científica para enfrentar os desafios produtivos, ambientais e climáticos das próximas décadas.
Por José Manoel Colombari Filho
Pesquisador da Embrapa e Coordenador do
Programa de Melhoramento Genético de Arroz da Embrapa (Melhor Arroz)



