Menos arroz no Sul
Colheita começa com expectativa de produtividade média e área abaixo dos 900 mil ha
Falta de renda faz o arrozeiro pisar no freio nesta safra
O Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 70% do arroz produzido no Brasil, inicia a safra 2025/26 sob um cenário de retração mais acentuada do que o inicialmente projetado. Levantamentos do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) indicaram, em agosto último, a intenção de plantio para a temporada atual (2025/26) próxima de 920 mil hectares, já 5% inferior ao ciclo anterior. Avaliações recentes do setor apontaram que a área efetiva poderá ficar abaixo de 900 mil hectares, consolidando o menor patamar dos últimos anos.
Os números do Irga estão, portanto, em consonância com as principais consultorias do estado. A AgroDados/Planeta Arroz, por exemplo, trabalha com projeção de 887.350 hectares e produção de 8,77 milhões de toneladas. Na última expectativa divulgada pelo Irga, a intenção de semeadura no Rio Grande do Sul chegava a 920.081 hectares, uma redução de 5,17% frente a 970.216 hectares, que produziram 9.044 quilos por hectare, em um total de 8,77 milhões de toneladas.
A queda de área, portanto, passaria para 9,4%. Além disso, a produtividade não deve se repetir, pairando perto da média dos últimos cinco anos, em 8.692 quilos por hectare, sugerindo uma produção de 7,713 milhões de toneladas a serem colhidas. Para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em seu levantamento divulgado em janeiro, o Rio Grande do Sul deverá colher 7,664 milhões de toneladas com base em uma área semeada de 919,7 mil hectares e produtividade média de 8.350 quilos por hectare. A área de terras baixas com soja tende a ser superior aos 380 mil hectares do ano passado, levando em conta a estabilidade de renda, ausência de El Niño e previsão de chuvas em excesso, disponibilidade de água e o custo de produção bem menor do que o do arroz.
A redução é explicada, sobretudo, pela perda de rentabilidade. Com preços do arroz enfraquecidos e custos elevados de insumos, energia e crédito, muitos produtores relataram dificuldades para cobrir os custos operacionais, o que levou ao enxugamento dos investimentos e à migração para culturas mais competitivas, como a pecuária. A menor margem reduziu o apetite por expansão e estimulou decisões mais conservadoras no planejamento da safra.
O clima também pesa nas contas. Em diferentes regiões, excesso – e até falta – de umidade e atrasos na semeadura dificultaram o avanço do plantio e aumentaram o risco de produtividade mais baixa. O frio noturno também foi mais intenso e prolongado na primavera. Áreas com restrições hídricas ou problemas operacionais nem foram implantadas.
Outro entrave é o acesso ao crédito. Produtores relataram maior seletividade dos financiamentos de custeio, o que limitou o pacote tecnológico das lavouras. Com menor uso de insumos e manejo mais enxuto, a produtividade média tende a recuar, ampliando o impacto da queda de área sobre o volume final colhido.
Com isso, a perspectiva é de uma safra menor tanto em superfície quanto em produção. Especialistas avaliam que, sem recuperação de preços ou apoio mais consistente ao setor, o estado deverá repetir um ciclo de ajuste forçado, com oferta reduzida e maior cautela dos arrozeiros — um movimento que poderá redefinir o tamanho da orizicultura gaúcha no curto prazo.
As impressões do campo
Segundo o engenheiro agrônomo Eduardo Munoz, diretor da Consultoria Porteira Adentro, a safra de arroz do Rio Grande do Sul deverá registrar retração maior do que a prevista inicialmente. A combinação de preços baixos, desmotivação dos produtores e excesso de chuvas no início do plantio atrasou a semeadura e deverá reduzir a área para entre 880 mil e 890 mil hectares, abaixo dos 920 mil hectares projetados.
Os atrasos foram mais intensos na Fronteira Oeste, principal polo produtor. Temperaturas abaixo da média, associadas ao La Niña, crescimento vegetativo lento, casos de fitotoxicidade e uma onda de frio em janeiro, que provocou amarelecimento das lavouras, aumentaram as incertezas sobre a produtividade. O menor investimento em adubação, defensivos e manejo também refletiu o aperto financeiro do setor.
Na mesma linha, o engenheiro agrônomo Gustavo Hernandez, de Uruguaiana, observou redução do nível tecnológico nas propriedades, com cortes em fertilizantes, menor controle de plantas daninhas, atrasos na irrigação e menos manutenção de equipamentos, motivados por restrição de crédito e preocupação com os custos da próxima safra. Para ele, a soma de clima menos favorável, menor radiação solar e enxugamento de investimentos deverá resultar em queda de produção em relação ao ciclo passado.
Hernandez acrescentou que a incerteza climática também freou o cultivo de soja e milho na várzea, culturas que perderam espaço diante do risco produtivo e da necessidade de controle de despesas. O cenário, segundo os técnicos, impõe uma safra de decisões mais conservadoras, com foco em eficiência e gestão de custos no campo.

