O fundo do poço
Saca de arroz desabou de US$ 25 para US$ 9,50 e estremeceu o mercado
Um verdadeiro terremoto abalou a rizicultura global, impulsionado pela pandemia de covid-19, compras de pânico, inflação, medo de inflação e fatores externos, como a saída e posterior retorno da Índia — que injetou cerca de 25 milhões de toneladas de excedentes no mercado mundial —, além do aumento da produção em diversos países. Esses fatores fizeram com que o cenário global oscilasse do auge à crise em apenas 24 meses. O comportamento das cotações do arroz entre 2024 e 2025 evidencia um ciclo clássico de estouro seguido de correção prolongada e dolorosa. Em janeiro de 2024, o mercado ainda surfava o pico, com preço de R$ 127,24 por saca (US$ 25,89), refletindo um movimento construído desde 2023, marcado por preocupações com oferta, clima, abastecimento interno, inflação e impactos da pandemia.
A partir desse ponto, o mercado entrou em uma fase de ajuste. Entre fevereiro e outubro de 2024, os preços recuaram, mas permaneceram em patamares ainda considerados favoráveis, com a saca oscilando entre R$ 100,00 e R$ 119,00 (aproximadamente US$ 20,00 a US$ 22,00). Esse período ficou conhecido entre analistas como o “platô de acomodação”: não mais o auge, mas um nível que ainda remunerava boa parte dos produtores, especialmente os mais eficientes.
O sinal de virada estrutural ficou evidente no final de 2024. Em novembro, a saca caiu para R$ 111,66 (US$ 19,25) e, em dezembro, recuou para R$ 99,90 (US$ 16,39). O aumento dos custos — fertilizantes, defensivos e energia para irrigação — já vinha comprimindo as margens, e o espaço para queda de preços sem impacto no campo começava a se esgotar.
Em 2025, instalou-se a chamada “escadaria descendente”. De janeiro a dezembro, os preços praticamente só seguiram para baixo: de R$ 99,72 (US$ 16,58) em janeiro para R$ 53,06 (US$ 9,73) em dezembro, representando uma queda de cerca de 47% em reais e mais de 40% em dólares em apenas 12 meses. Não houve um tombo único, mas uma sequência de degraus: R$ 95,70 em fevereiro, R$ 82,16 em março, R$ 76,30 em abril, R$ 73,70 em maio e R$ 67,01 em junho, até atingir a faixa de R$ 50,00 no fim do ano. Nesse período, de sete a 10 navios foram embarcados para países vizinhos por absoluta falta de oferta. O arroz caía e, mesmo cientes da tendência de queda, muitos produtores inexplicavelmente seguraram a comercialização.
Quem segurou a oferta a R$ 100 e R$ 90 acabou vendendo a R$ 80, e assim por diante. Ao longo da cadeia produtiva, exceto para o consumidor, estabeleceu-se uma relação que pode ser caracterizada como perde-perde: o produtor recebia menos a cada venda, enquanto a indústria comprava a preços que, ao vender o arroz beneficiado, já geravam prejuízo. “De forma simplista e resumida, podemos afirmar que em 2025 a indústria sempre comprou mais caro do que vendeu”, reconheceu o diretor executivo do Sindicato da Indústria do Arroz no Estado do Rio Grande do Sul (Sindarroz), Tiago Sarmento Barata.
Vários fatores explicam esse desabamento: grande oferta regional e internacional, baixo interesse de venda, alta competitividade de outros exportadores das Américas e da Ásia, exportações aquém do potencial na primeira metade do ano e ausência de instrumentos de proteção de preço. O ano de 2025 entrou para a conta como um período de queda pesada, com descapitalização e retração de área nas regiões mais vulneráveis. A trajetória que vai de quase US$ 26 por saca para pouco menos de US$ 10 por saca em dois anos evidencia, de forma numérica, o desafio que o setor enfrentará em 2026.
Linha do tempo das cotações (R$/saca, 50 kg)
– Pico – jan/24: R$ 127,24 (US$ 25,89).
– Platô – mai–out/24: entre R$ 100,00 e R$ 119,00.
– Virada – dez/24: R$ 99,90 (US$ 16,39).
Escadaria de baixa – jan–dez/25:
– Jan/25: R$ 99,72
– Mar/25: R$ 82,16
– Jun/25: R$ 67,01
– Out/25: R$ 58,01
– Dez/25: R$ 53,06 (US$ 9,73)
– Resumo: mais de 40% de queda em dólar em um ano.
