Setor faz o enfrentamento da crise
Fiscalização no varejo: entidades querem órgãos coibindo as fraudes por tipo de arroz
Sete frentes de ação buscam reequilibrar o mercado do arroz
A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), a Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) e a Secretaria Estadual da Agricultura apresentaram um pacote de sete medidas sugeridas e reivindicadas para enfrentar a crise de preços do arroz no Rio Grande do Sul. As ações vão desde a orientação clara e antecipada, já no primeiro semestre de 2025, para a redução da área plantada na safra 2025/26 até o uso de instrumentos de comercialização (como PEP, Pepro), emprego da taxa CDO para estimular exportações e escoamento, redução temporária de ICMS no pico da comercialização, desconcentração dos vencimentos de CPRs, alongamento de custeios pelas instituições financeiras e combate à venda de arroz fora do tipo especificado na embalagem.
São ações que dependem da cadeia produtiva, mas em muito, dos organismos estaduais e federais. A leitura das entidades é que, sem atacar simultaneamente oferta, fluxo financeiro e distorções de mercado, o produtor não terá condições de atravessar 2026 com capacidade de recuperar a renda em nível adequado.
Para o presidente do Sistema Farsul, Domingos Velho Lopes, medidas são fruto de um momento de maturidade das entidades, que deixaram de reagir aos problemas para atuar de forma propositiva e coordenada. Argumentou ainda que o setor vive um dos momentos mais delicados da história, com combinação de fatores de mercado, clima e geopolítica, e que a função das entidades agora é trazer “verdades técnicas” para contrapor narrativas de desabastecimento usadas como pretexto para intervenções equivocadas, como a autorização, em 2024, para que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) importasse arroz.
Domingos entende que, ao impor um preço artificial com arroz estrangeiro subsidiado, o governo desorganizou o mercado interno, ameaçou a sustentabilidade econômica das safras seguintes e transformou a crise logística e conjuntural em um problema estrutural de produção.
Já o presidente da Federarroz, Denis Dias Nunes, ressaltou que a agenda de ações nasce da antecipação de cenários: a supersafra no Mercado Comum do Sul (Mercosul), a elevada produção mundial, o retorno da Índia às exportações, o crédito restrito e os juros elevados eram fatores conhecidos desde 2025 e já indicavam queda de preços e aumento do endividamento. Segundo ele, as medidas adotadas e em negociação têm como objetivo central preservar a capacidade de produção do Rio Grande do Sul, evitando um “apagão” de oferta nos próximos anos. As entidades reforçaram que pretendem alcançar um ponto de equilíbrio: comprovar, por meio do monitoramento diário do escoamento, que o abastecimento está se normalizando; garantir renda mínima ao produtor; e manter diálogo com governo e sociedade, desde que baseado em estatísticas, e não em conveniências políticas.
OS SETE PASSOS EM NEGOCIAÇÃO

1. Redução de área plantada
Desde meados de 2025, as entidades passaram a orientar, de forma transparente, a redução da área plantada como principal medida para ajustar a oferta à demanda. O Irga registrou queda de 5,17% na intenção de plantio no Rio Grande do Sul, mas o setor acredita que o movimento é maior e se espalha pelo Brasil. A mensagem é clara: sem ajuste de área, não há recuperação sustentável de preços.
2. Ativação de mecanismos de comercialização
Federarroz e parceiros acionaram instrumentos da Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM), como PEP e Pepro, para viabilizar o escoamento de excedentes. Em 2025, leilões movimentaram mais de 213 mil toneladas, com apoio do governo federal. A AGF também foi utilizada, mas com ressalvas, pois pode distorcer ainda mais o mercado se mal calibrada.
3. Uso estratégico da taxa CDO
Com apoio do governo do Estado e do Legislativo, a taxa CDO passou a ser vista como instrumento de política econômica. A Lei nº 16.407/2025 autorizou destinar parte dos recursos para subvenções, exportação e apoio ao escoamento, beneficiando diretamente o produtor e ajudando a enxugar estoques.
4. Redução temporária do ICMS
Em tratativas com o governo gaúcho, as entidades propuseram ajustar o ICMS no período de maior comercialização, para tornar o arroz local mais competitivo frente ao importado, especialmente do Paraguai. O objetivo é proteger a renda do produtor e a arrecadação estadual, evitando que quedas de preço levem a perdas ainda maiores de receita.
5. Desconcentração dos vencimentos de CPRs
Para evitar que o produtor seja forçado a vender tudo de uma vez, as entidades articulam, junto a indústrias e bancos, a reprogramação dos vencimentos de CPRs ao longo de vários meses. Isso dilui a pressão de oferta e reduz o impacto negativo sobre os preços no pico da colheita.
6. Alongamento de custeios e investimentos
Complementar à desconcentração de dívidas, a negociação com instituições financeiras busca alongar prazos de custeios e investimentos, permitindo que o produtor tenha mais fôlego para escolher o melhor momento de venda, sem precisar liquidar tudo de uma só vez.
7. Combate ao “arroz fora de tipo”
Fiscalização, pesquisas e campanhas educativas estão sendo intensificadas para coibir a venda de arroz de qualidade inferior como se fosse Tipo 1. A prática prejudica o consumidor, desvaloriza o produto gaúcho e distorce a formação de preços. A ação conta com apoio do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e de órgãos de defesa do consumidor.

