Tensão global

Mercado mundial entra em fase mais sensível em 2026

O mercado internacional de arroz entra em 2026 mais vulnerável a choques climáticos, custos elevados e decisões de política comercial. Relatórios da FAO e do InfoArroz/CIRAD, do economista Patrício Méndez del Villar, indicam um quadro de oferta confortável, mas com menos folga entre produção, consumo e estoques – em contexto de maior instabilidade climática e geopolítica.

A produção mundial de 2025 atingiu o recorde de 848,5 milhões de toneladas (Mt) em base casca, equivalente a 563,4 Mt de beneficiado, alta de 2% sobre 2024. O avanço foi puxado por Índia, China e Indonésia. Em contraste, caiu a produção na África Subsaariana e EUA, afetados por clima adverso, enquanto o Mercosul – em especial o Brasil – produziu 20% a mais frente a 2024.

Para 2026, espera-se que a produção mundial deixe de crescer e até recue, pressionada pelo maior custo de fertilizantes e combustíveis, redução das áreas plantadas pela relação entre preços e custos, e regime de chuvas menos favorável nas regiões produtoras da Ásia e Mercosul.

Analistas preveem queda de rendimento entre 10% e 15% em áreas sensíveis a custos e clima, o que limitará a oferta, mesmo com estoques elevados.

O comércio mundial de arroz alcançou 61 milhões de toneladas em 2025, alta de 1,5% em relação ao ano anterior, mas deve encolher para 60 Mt em 2026. A expansão anterior foi sustentada pela forte demanda africana, cujas importações cresceram 15%. A Índia consolidou-se como maior exportador global, com 21,7 milhões de toneladas, seguida por Vietnã, Tailândia, Paquistão, Estados Unidos, Myanmar e Brasil.

Segundo o economista Patrício Méndez del Villar, do Cirad francês, os estoques mundiais fecharam 2025 em 210,5 milhões de toneladas, alta de 5,4% sobre 2024, e podem chegar a 219,8 milhões em 2026, equivalente a 40% do consumo global (4,8 meses). A China responde por 102 Mt, quase metade das reservas mundiais e 70% de seu próprio consumo. A Índia ampliou os estoques. A concentração torna o mercado sensível a decisões domésticas de controle de exportações e a choques climáticos regionais.

PREÇOS

No front de preços, abril de 2026 marcou nova alta. O índice OSIRIZ/InfoArroz (IPO) subiu para 182,5 pontos, contra 177,3 em março, e rondava 190 pontos em maio. Já o índice global da FAO (FARPI) atingiu 102,1 pontos em abril, 1,9% acima de março, puxado pelos segmentos Índica e aromático. Japônica e glutinoso recuaram. O aumento reflete, em parte, a disparada de custos da energia, colheita, beneficiamento, embalagem e fretes, que subiram 20%.

ORIGENS

Entre as origens, as cotações seguiram firmes: o arroz tailandês 100% B foi negociado a US$ 411/t FOB em abril, o Viet 5% a US$ 377,9/t, enquanto no Mercosul o Brasil 5% chegou a US$ 512,5/t e o Uruguai 5% a US$ 511,3/t, com altas de 8% e 14% no mês. Nos Estados Unidos, o longo fino #2/4% permaneceu em US$ 542/t, pressionado pela concorrência do Mercosul, mas em patamar elevado.

Esse pano de fundo se somou à preocupação crescente com o El Niño, que tende a intensificar chuvas no Sul do Brasil e no Cone Sul e a provocar irregularidade de monções em grandes produtores asiáticos. Em um mercado com estoques concentrados, margens pressionadas e clima mais errático, o arroz volta ao centro das discussões sobre segurança alimentar, inflação e risco de oferta em 2026.

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