Safra avança, mas mercado desafia a lógica: preços do arroz resistem e exportações são vitais

 Safra avança, mas mercado desafia a lógica: preços do arroz resistem e exportações são vitais

Cleiton Evandro dos Santos
Revista Planeta Arroz | AgroDados Inteligência em Mercados de Arroz™

Em um ano em que a lógica tradicional indicaria queda de preços com o avanço da colheita, o mercado de arroz brasileiro começa a mostrar sinais de um comportamento mais complexo. A combinação entre atraso na colheita no Mercosul, retenção de produto pelos produtores, demanda internacional ativa e intervenções pontuais do governo está sustentando as cotações em níveis acima do esperado para este momento da safra.

O anúncio de mais de R$ 73 milhões em leilões de PEP e Pepro, feito pelo governo federal por meio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), reforçou esse ambiente de sustentação. Os instrumentos reduzem parte da pressão típica da entrada da safra e aproximam os preços do mínimo oficial da PGPM, fixado em R$ 63,74 por saca de 50 quilos.

Na última semana, o indicador do Cepea registrou média de R$ 55,51 por saca, com negócios variando entre R$ 52 e R$ 58 nas principais praças. No porto, as indicações oscilaram entre R$ 60 e R$ 62.

Ainda assim, a rentabilidade segue pressionada quando se consideram os custos logísticos e operacionais. Fretes internos variam entre R$ 7 e R$ 7,50 por saca na Fronteira Oeste e R$ 3 a R$ 3,50 na Zona Sul, além de taxas adicionais que reduzem o valor líquido ao produtor.

Intervenção ajuda, mas não muda o equilíbrio do mercado

Os leilões anunciados devem apoiar a comercialização de cerca de 300 mil toneladas, sendo 250 mil toneladas apenas no Rio Grande do Sul.

Mesmo que esse volume se confirme integralmente, ele representa apenas 2,3% da nova safra brasileira, estimada em 10,9 milhões de toneladas. Considerando estoques de passagem superiores a 2 milhões de toneladas, o impacto cai para aproximadamente 1,8% das disponibilidades totais.

Na prática, os mecanismos ajudam a organizar o fluxo de comercialização e evitar quedas abruptas, mas não têm escala suficiente para alterar o balanço estrutural entre oferta e demanda.

Exportações continuam sendo o fator decisivo

Com produção elevada no Brasil e no Mercosul, o mercado interno não consegue absorver sozinho os excedentes.

Mesmo que o consumo doméstico cresça — hipótese levantada pela própria Conab — a necessidade de escoamento externo permanece.

A experiência recente mostra o risco de perder espaço internacional. Em 2025, o Brasil deixou de embarcar cerca de 180 mil toneladas, o equivalente a seis navios, por falta de produto disponível no momento adequado.

Por isso, sob demanda, o Brasil não pode deixar de exportar. Os preços atuais ainda representam um dos níveis mais competitivos do mercado brasileiro para vendas diretas, especialmente para compradores internacionais.

A alternativa seriam os leilões de PEP e Pepro, mas os mecanismos têm volumes limitados e dependem do ritmo burocrático do governo, o que reduz sua eficácia como solução imediata.

Quanto maior o volume exportado ao longo do ano, maior a capacidade de reduzir estoques e sustentar uma recuperação mais consistente das cotações internas.

Pico de preços em plena colheita

Um fator inesperado tem contribuído para sustentar o mercado: o atraso na colheita em diferentes regiões do Mercosul, que restringiu a oferta disponível no curto prazo.

Nas últimas semanas, circularam nas redes sociais prints de comunicados internos de grandes indústrias suspendendo temporariamente novas vendas enquanto aguardam recomposição de estoques.

O episódio reforça que o mercado vive um pico momentâneo de preços em plena colheita, contrariando a expectativa inicial de queda imediata com a entrada da safra. A pressão mais forte de oferta tende a aparecer apenas no final de março, quando a colheita atingir seu pico.

Produtores com maior capacidade de retenção

Outro fator que altera a dinâmica tradicional de safra é o comportamento do produtor.

Quem ainda não vendeu arroz não precisa necessariamente liquidar a produção a preços baixos. Muitos produtores possuem maior margem financeira ou alternativas de renda, o que aumenta a capacidade de retenção.

Além disso, parte da atenção do setor está voltada para outras atividades agrícolas. A pecuária ganha espaço em algumas propriedades e, principalmente, os preços da soja — físicos e futuros — tornaram-se mais atrativos. Em Chicago, as cotações da oleaginosa atingiram recentemente os níveis mais elevados dos últimos dois anos.

Guerra no Oriente Médio entra no radar — mas sem impacto direto no arroz brasileiro

O conflito no Oriente Médio também passou a influenciar o debate no mercado agrícola global, embora não represente ameaça direta ao arroz consumido nas Américas.

Houve grande repercussão nas redes sociais sobre a possibilidade de portos do Iraque e do Golfo Pérsico enfrentarem dificuldades para receber cerca de 400 mil toneladas de arroz Basmati.

No entanto, o consumo desse tipo de arroz nas Américas representa menos de 0,5%, enquanto o mercado regional é amplamente dominado pelo arroz longo-fino tipo agulhinha.

Além disso, dois terços das exportações brasileiras são destinadas às Américas, com apenas um pequeno volume de arroz beneficiado enviado ao Oriente Médio.

Energia e fertilizantes entram no radar do agro

Se o impacto direto no arroz é limitado, o conflito levanta outra preocupação relevante: energia e fertilizantes.

A escalada geopolítica pressiona o petróleo, elevando custos logísticos e fretes. Mais sensível no longo prazo é o gás natural, base da produção de fertilizantes nitrogenados.

Cerca de 30% dos fertilizantes nitrogenados do mundo têm origem no Golfo Pérsico, sendo aproximadamente 10% provenientes do Irã. Como o nitrogênio sintético sustenta quase metade da produção mundial de alimentos, qualquer restrição logística prolongada pode gerar impactos relevantes na agricultura global.

Indústria reorganiza estratégia

Nos últimos dias também ficou mais clara a estratégia da indústria para recuperar competitividade em um ambiente de margens apertadas.

De um lado, vazaram para a mídia comunicados internos de grandes beneficiadoras suspendendo novas vendas até que seus estoques sejam recompostos, movimento que tende a pressionar o varejo a aceitar novas tabelas de preços.

De outro, em reunião recente em Pelotas, representantes do setor decidiram avançar na criação de um cadastro de inadimplentes de CPRs, uma espécie de “SPC das CPRs”.

A iniciativa busca evitar casos em que produtores ficam devendo para uma empresa e vendem para outra, ou realizam CPRs com diferentes compradores em safras consecutivas sem liquidar compromissos anteriores.

Na prática, o mecanismo tende a reduzir riscos de crédito para a indústria e pressionar a liquidação de produto dentro das empresas com as quais os produtores mantêm contratos.

O teste do mercado será 2026

No curto prazo, PEP e Pepro cumprem o papel de ganhar tempo e evitar deterioração adicional das cotações.

Mas o teste real do mercado será a capacidade de ajustar estoques ao longo de 2026.

Fatores como possível redução de área nos Estados Unidos, menor intenção de plantio no Mercosul e até um eventual retorno do El Niño podem criar um ambiente mais favorável aos preços no futuro.

Até lá, porém, a equação permanece clara: sem exportações consistentes, não haverá recuperação estrutural do mercado de arroz no Brasil.

2 Comentários

  • As vezes me pergunto: -Será mesmo que esse estoque de passagem de 2 milhões de toneladas existe mesmo? O papel aceita tudo não? De fato até agora que os custos vão subir ainda mais com a Guerra no Oriente Médio… E com esses precinhos de 55/58 duvido que algum maluco desavisado plante arroz esse ano! A industria se deu conta disso e sabe que não pode mais se prostituir para os atacadistas pq senão ano que vem ela não terá matéria-prima! Tempos estranhos que corrigiram os rumos da besteira que fizeram nos dois últimos anos!

  • Corrigirao!

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