Na mosca

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A safra gaúcha será de 7,8 milhões de t, dizem dados do Irga

A safra gaúcha de arroz 2025/26 chega ao final consolidando um cenário de forte contraste entre desempenho produtivo e rentabilidade. Mesmo com retração da área cultivada, o Rio Grande do Sul voltou a registrar produtividade elevada, reforçando sua posição como principal polo arrozeiro do país. Mas o ciclo termina marcado pela deterioração dos preços e mais dificuldades financeiras no campo.

O Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) divulgou, em 21 de maio, que a colheita atingia 99,58% da área semeada no Estado. Foram cultivados 891,9 mil hectares, dos quais 888,2 mil já haviam sido colhidos até a atualização oficial. A produtividade média alcançou 8.798 quilos por hectare, valor considerado elevado para os padrões históricos da cultura, gerando uma colheita de 7,8 milhões de toneladas. As regiões da Zona Sul e Fronteira Oeste lideraram os rendimentos, ambas acima de 9 mil quilos por hectare. A Campanha, a Planície Costeira Interna e a Região Central também registraram médias robustas, mantendo o desempenho produtivo gaúcho em alto nível. A Planície Costeira Externa teve o pior desempenho, com 8.180 quilos por hectare.

O presidente do Irga, Alexandre Velho, destacou ao longo do ciclo que a luminosidade e a distribuição das chuvas seriam decisivas para os resultados da safra. Diferentemente dos excessos hídricos observados em anos anteriores, a temporada 2025/26 apresentou condições climáticas favoráveis à fase reprodutiva das lavouras, contribuindo para a manutenção do elevado potencial produtivo.

A boa produtividade não foi suficiente para garantir rentabilidade. A combinação entre grande oferta no Mercosul, retomada das exportações indianas pressionando o mercado internacional e os estoques abundantes derrubou os preços ao produtor durante o primeiro quadrimestre, fazendo com que as cotações ficassem abaixo do custo operacional da atividade. O anúncio de leilões de Pepro e PEP, pelo governo federal, inflou artificialmente os preços, mas após os primeiros leilões, em maio, fundamentos econômicos como oferta e demanda prevaleceram.

O presidente da Federarroz, Denis Nunes, defende medidas de apoio ao setor diante das dificuldades econômicas enfrentadas pelos produtores. O debate envolvendo renegociação de dívidas, mecanismos de sustentação de preços e ampliação das exportações ganhou força ao longo do semestre. “A solução dos problemas setoriais vai muito além da porteira”, resumiu.

A safra 2025/26 encerra reafirmando a capacidade técnica e produtiva da orizicultura gaúcha. O principal desafio do setor, porém, permanece econômico: garantir renda suficiente para manter o produtor competitivo diante de um mercado internacional cada vez mais pressionado pela oferta e competição.

El Niño e preços baixos exigem mais cautela

Com a safra 2025/26 praticamente encerrada, produtores e entidades do setor voltam as suas atenções, agora, ao próximo ciclo no Rio Grande do Sul. O cenário para a temporada arrozeira 2026/27 mistura preocupação climática, incertezas econômicas e possibilidade de nova retração da área cultivada.

O principal fator climático no radar do setor é a possível atuação do fenômeno El Niño durante a próxima temporada. O fenômeno está associado ao aumento das chuvas no Sul do Brasil, elevando o risco de excesso hídrico durante períodos importantes da lavoura, como implantação e colheita. Vale para soja em várzea.

Embora o arroz irrigado dependa da disponibilidade de água, o excesso pode comprometer a luminosidade, aumentar a pressão de doenças e dificultar operações no campo. A lembrança recente das enchentes ainda mantém produtores atentos à evolução climática para os próximos meses.

Ao mesmo tempo, o fator econômico é a principal preocupação para novo plantio. Os baixos preços registrados no primeiro semestre de 2026 aumentaram o endividamento e reduziram a capacidade de investimento dos produtores gaúchos. A guerra no Golfo piorou a situação, elevando os preços dos combustíveis e de insumos importantes, como fertilizantes.

O presidente do Irga, Alexandre Velho, já havia alertado que as dificuldades de crédito e os elevados custos de produção impactariam diretamente as decisões de plantio. O resultado foi a redução da área para menos de 900 mil hectares na safra atual, movimento que deverá se repetir se o mercado não apresentar recuperação.

Na avaliação do setor, o comportamento das cotações até o segundo semestre será decisivo para definir o tamanho da próxima safra gaúcha. Muitos produtores avaliam ampliar a área de soja em áreas de várzea ou reduzir investimentos para diminuir a exposição financeira. Mas, a soja, em anos de El Niño, pode não ir bem nas várzeas com excesso hídrico. O risco é maior.

Mesmo diante das incertezas, parte do mercado acredita que a redução da área observada em 2025/26 poderá ajudar no equilíbrio entre oferta e demanda nos próximos meses. A combinação entre menor produção gaúcha, exportações mais aquecidas e possível redução dos estoques internos pode abrir espaço para recuperação gradual dos preços, somando-se à menor área dos EUA em 11 anos, e a guerra do Golfo limitando as compras de muitos países nas origens asiáticas.

O próximo ciclo deverá ser definido por três fatores centrais: clima sob influência do El Niño, comportamento dos preços e disponibilidade de crédito. O potencial produtivo segue elevado no Estado. A grande dúvida agora é quanto dessa capacidade o produtor conseguirá efetivamente levar ao campo em 2026/27.

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