Setor prevê área de arroz 9% menor e pressão sobre as cotações em 2026
Lideranças setoriais anunciaram queda de área, menor safra e medidas adotadas para que os preços do arroz reajam em 2026. Foto: Divulgação
(Por Claudio Medaglia, Jornal do Comércio/RS) As principais entidades representativas da cadeia do arroz projetam uma redução próxima de 9% na área plantada no Rio Grande do Sul e alertam para o risco de concentração das vendas no primeiro semestre de 2026, cenário que pode pressionar preços e comprometer a sustentabilidade econômica dos produtores. O cenário foi apresentado em coletiva de imprensa realizada na manhã desta quinta-feira pela Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Federação das Associações de Arrozeiros do RS (Federarroz), Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) e Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi).
O diagnóstico é resultado de um trabalho conjunto iniciado em meados de 2025, com base em dados de área, produtividade, estoques, exportações e instrumentos de política agrícola, com foco em evitar desequilíbrios mais severos no atual ciclo. No centro das preocupações está a possibilidade de que grande parte da produção seja ofertada em curto espaço de tempo, especialmente entre março e junho de 2026.
A avaliação das entidades é que a combinação entre estoques de passagem, vencimentos concentrados de Cédulas de Produto Rural (CPRs), limitações de crédito e gargalos logísticos pode provocar um excesso de oferta pontual, com impacto direto sobre os preços pagos ao produtor.
Segundo o presidente da Farsul, Domingos Velho Lopes, o desafio é evitar que fatores financeiros e operacionais forcem a comercialização em massa logo após a colheita. A estratégia defendida passa pelo alongamento de prazos, melhor uso de instrumentos públicos de comercialização e estímulo ao escoamento ao longo do ano, reduzindo a dependência do primeiro semestre.
O Irga antecipou que a área plantada de arroz no Rio Grande do Sul ficará abaixo de 900 mil hectares, com estimativa preliminar entre 880 mil e 890 mil hectares. O número final deverá ser divulgado oficialmente na próxima semana, após conferência dos dados regionais.
De acordo com o presidente da autarquia, Alexandre Velho, o corte reflete uma resposta direta dos produtores às sinalizações de mercado. Além da menor área, os levantamentos iniciais indicam produtividade inferior à do ano passado, influenciada por maior incidência de arroz vermelho, problemas de infestação e, principalmente, menor uso de tecnologia, consequência das restrições de crédito enfrentadas ao longo do ciclo.
No cenário nacional, as entidades avaliam que o ajuste observado no Rio Grande do Sul — responsável por cerca de 70% da produção brasileira — terá peso determinante na retração da área total cultivada no País, funcionando como mecanismo de reequilíbrio da oferta.
Durante a coletiva também foram detalhados os principais entraves enfrentados pelo setor, que vão além da safra atual. Entre eles estão a assimetria competitiva no Mercosul, com preocupação especial em relação ao arroz importado do Paraguai; diferenças tributárias e logísticas, que colocam o arroz gaúcho em desvantagem frente a outras regiões do País; elevados custos de produção, agravados por dificuldades de acesso ao crédito; mudança nos hábitos de consumo, com maior concorrência de alimentos ultraprocessados; e práticas irregulares de mercado, como a comercialização de arroz fora de tipo como se fosse produto padrão, distorcendo preços e estoques
Conjunto de medidas em execução Desde o segundo semestre de 2025, as entidades estruturaram um conjunto de sete medidas, a maioria já em execução, com foco em curto e médio prazo. Entre elas estão:
Orientação para redução de área plantada como ajuste preventivo de oferta.
Atuação junto ao governo federal para uso de mecanismos de comercialização, como PEP e PEPRO.
Uso alternativo da taxa CDO, com regramento em construção para que os recursos retornem ao produtor, via estímulo à exportação e ações de mercado.
Defesa de ajustes tributários no período de colheita, especialmente no ICMS.
Desconcentração dos vencimentos das CPRs.
Negociação com agentes financeiros para alongamento de dívidas e custeio.
Pesquisa e fiscalização contra fraudes de tipificação, com divulgação de resultados prevista para as próximas semanas.
Ajuste de mercado combina instrumentos públicos e novas frentes de demanda
Segundo o presidente da Federarroz, Denis Dias Nunes, essas ações têm como objetivo central evitar que o produtor seja penalizado por produzir com eficiência, ao mesmo tempo em que se busca maior previsibilidade para a indústria e para o mercado. As entidades também destacaram o papel dos instrumentos públicos utilizados na safra passada, como aquisições governamentais (AGFs) e contratos de opção, que ajudaram a sustentar preços em regiões mais distantes dos portos e a retirar parte do excedente do mercado.
A avaliação é de que essas ferramentas continuam sendo relevantes, desde que aplicadas de forma pontual e alinhadas com dados técnicos. Além das medidas emergenciais, o setor apresentou iniciativas estruturantes, como o estudo de novos destinos para o arroz, entre eles a produção de etanol e biocombustíveis. A avaliação das lideranças é que essa alternativa não substitui a alimentação humana, mas pode ampliar a base de demanda no médio e longo prazo, especialmente em segmentos como transporte pesado, naval e aéreo.


