Novo ciclo do arroz começa pressionado por margens negativas e deve encolher oferta em 2026

 Novo ciclo do arroz começa pressionado por margens negativas e deve encolher oferta em 2026

Foto: Geovani Wrasse/Irga

(Por Planeta Arroz) O mercado brasileiro de arroz entra em 2026 sob um ambiente de forte incerteza. A combinação de preços deprimidos ao longo de 2025, dificuldades de acesso a crédito e desafios na efetivação de instrumentos governamentais de garantia de preços mínimos formou um cenário de margens negativas para os produtores. Esse conjunto de fatores, aliado ao elevado volume de estoques, deve resultar em uma safra menor tanto no Brasil quanto no restante do mundo.

No país, os dados preliminares que serão divulgados neste início de 2026 já apontam redução da área plantada, reflexo das decisões tomadas pelos rizicultores ainda no segundo semestre do ano passado. O movimento ocorre em sincronia com o cenário internacional: entre os 16 principais produtores globais, 10 devem registrar quedas na produção, segundo estimativas do USDA, interrompendo quase uma década de avanço contínuo da oferta mundial.

Informações do Cepea referentes ao último trimestre de 2025 mostram que, embora os custos operacionais no Rio Grande do Sul tenham recuado entre 3,8% e 7,7% em relação ao mesmo período de 2024, os preços de venda caíram muito mais — uma queda expressiva de 46%. Nesse descompasso, as margens passaram de positivas para negativas, variando de -3% a -12% em Camaquã e Uruguaiana, respectivamente, o pior resultado trimestral desde 2021.

A volatilidade dos resultados ao longo dos anos vem aumentando, elevando o risco produtivo e contribuindo para a retração contínua das áreas voltadas ao arroz irrigado. Para equilibrar as contas na atual temporada, produtores necessitariam atingir produtividades muito superiores ao padrão regional: cerca de 175 sacas por hectare em Camaquã e até 200 sacas por hectare em Uruguaiana, patamares acima das médias historicamente observadas.

Queda na produção nacional

As estimativas mais recentes da Conab reforçam a tendência de retração. No arroz irrigado, a área deve recuar para 1,28 milhão de hectares, redução de 6,6% frente ao ciclo anterior. A produtividade também tende a diminuir, levando a uma produção projetada de 10,2 milhões de toneladas, 12,1% abaixo da colheita passada.

A queda é generalizada entre os estados produtores e afeta todas as regiões. No Centro-Sul, a produção deve encolher 11,5%, enquanto North e Nordeste podem registrar retração ainda mais intensa, de 18%. O arroz de sequeiro segue a mesma direção, com área 13,2% menor e produção estimada 16,2% inferior à de 2024/25.

Somando irrigado e sequeiro, a oferta nacional prevista para 2025/26 é de 11,17 milhões de toneladas, 12,4% a menos que no ciclo anterior.

Mesmo com a safra reduzida, a disponibilidade interna deve ficar praticamente estável, em 14,62 milhões de toneladas, graças aos estoques e às importações. Porém, o setor deve operar com estoques finais menores: cerca de 1,52 milhão de toneladas em fevereiro de 2027, equivalentes a 7,2 semanas de consumo — ainda um nível considerado elevado, o que tende a limitar reações mais fortes de preço no curto prazo.

Por que os preços não sobem mesmo com menor oferta?

Apesar da perspectiva de redução de área e queda da produção, o mercado doméstico convive com estoques ainda amplos. Esse colchão de segurança suaviza a pressão altista que normalmente acompanha safras menores. Assim, mesmo diante de volumosas perdas de margem, os produtores não encontram, por enquanto, sinais consistentes de valorização.

Outro elemento que pesa é o avanço das exportações brasileiras, que devem chegar a 2,1 milhões de toneladas em 2025/26. Ainda que positivo para a competitividade do setor, esse fluxo elevado não tem sido suficiente para compensar os estoques robustos e a demanda interna praticamente estável.

Cenário externo

No cenário global, o USDA projeta a primeira queda de produção em quase dez anos, com 540,4 milhões de toneladas de arroz beneficiado — ligeiramente abaixo da safra anterior. O consumo mundial, porém, deve crescer 2%, renovando recorde e reduzindo os estoques para 188,83 milhões de toneladas.

Apesar da redução do volume estocado, o comércio internacional segue aquecido, com exportações globais previstas para 63,23 milhões de toneladas. O Brasil se destaca entre os países que devem ampliar suas vendas externas, ao lado de Paquistão, Índia e União Europeia.

Do lado da demanda, aumentos expressivos são esperados nas Filipinas, em Camarões e no Iêmen. Mesmo assim, a relação entre estoque e consumo permanece confortável no plano global, o que restringe maiores pressões altistas no mercado internacional — e, por consequência, sobre os preços recebidos pelos produtores brasileiros.

4 Comentários

  • Análise perfeita. Somente uma quebra expressiva esse ano para acontecer algo diferente! Preços melhores só em 2027!!! Esse ano muita gente vai falir com esses preços entre R$ 40/50! Para um custo de R$ 80/90 tem que colher o dobro da média de produção normal, ou seja, algo entre 13.000 a 15.000 kg por hectare! Impossível no meu ver… Afora isso somente uma guerra a nivel mundial poderia mudar esse cenário. Plantar arroz será um péssimo investimento nos próximos anos! O produtor tem que aceitar isso… Alguns já perceberam… Os olhudos ainda não!

  • Uma pergunta. Em áreas que o cultivo do arroz é a única solução ou em áreas de rotação de cultura que chegou a hora de plantar arroz. O que fazer?
    Muitos não outra opção isso não é olho e necessidade.

  • Se é a única solução? Se não dá para plantar outras cultura (soja, milho, trigo) ou criar uns bois? A única solução é parar de plantar e vender ou arrendar, porque se não fizer isso, descapitalizado, arriscando, é falência na certa! Hoje em dia, ou o arrozeiro é muito bom no que faz, ou tem que arrumar outra atividade! Eu fiz isso… Pulei fora enquanto dava tempo! E não me arrependo…

  • Pior é plantar esperando por um lucro que nunca vai vir… Ano retrasado e nessa safra avisei o pessoal para reduzirem de 20 a 30% e plantassem outras culturas e colocassem bois, mas não fizeram isso! Reduziram apenas 10%. Isso significa que se a colheita for cheia, os preços ficarão nos patamares atual, oscilando entre R$ 40/60. Dai eu volto a pergunta prá ti: – Vale a pena plantar arroz com esses preços? Alguém vai ter lucro esse ano? Qual a esperança para esse pessoal que decidiu arriscar tudo novamente? Além de não ter lucro o endividamento não vai aumentar?

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