Próxima safra poderá ter efeitos do fenômeno El Niño
(Por Planeta Arroz, com Irga) Após janeiro e fevereiro registrarem pouca chuva no Rio Grande do Sul, o cenário climático começa a mudar no Pacífico, com reflexos diretos sobre o campo gaúcho. Conforme a meteorologista Jossana Ceolin Cera, consultora técnica do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), o atual episódio de La Niña está próximo do fim e há perspectiva de que um El Niño se estabeleça a partir da primavera, com 61% de probabilidade para o trimestre setembro/outubro/novembro.
Em janeiro, os volumes de chuva ficaram entre 40 e 160 milímetros na maior parte das regiões, com áreas registrando menos de 40 mm e apenas o extremo Nordeste superando os 160 mm. As anomalias de precipitação foram negativas em quase todo o Estado, à exceção do Litoral Norte. A frequência das chuvas foi especialmente baixa na Metade Sul. “Em Uruguaiana e Bagé praticamente só choveu no começo do mês, o que agravou a estiagem na Fronteira Oeste e na Campanha”, relata Jossana. Nas demais regiões houve mais episódios de precipitação, porém em volumes reduzidos. As temperaturas oscilaram próximas à média histórica, com maior aquecimento no fim do mês, exceto no Sul.
Segundo a meteorologista, boletim de 12 de fevereiro da NOAA (agência norte-americana de estudos oceânicos e atmosféricos) confirma que o acoplamento oceano-atmosfera no Pacífico Equatorial ainda é compatível com La Niña. Em janeiro, a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 ficou em -0,5°C, quarto mês seguido no limite do fenômeno. Na média trimestral (novembro e dezembro de 2025 e janeiro de 2026), a anomalia também foi de -0,5°C, terceiro trimestre consecutivo nesse patamar.
MUDANÇA
A tendência, porém, é de mudança rápida. “A última atualização da NOAA indica 60% de chance de retorno à neutralidade no trimestre fevereiro-março-abril de 2026, condição que deve se estender até junho-julho-agosto, com 56% de probabilidade”, explica Jossana. “Já o desenvolvimento de um El Niño é projetado com 61% de probabilidade para setembro-outubro-novembro.”
Ela pondera que previsões emitidas no outono têm maior incerteza, mas ressalta que os sinais de transição já são claros: ventos e distribuição de temperaturas no Pacífico Equatorial estão se alterando, com aquecimento nas últimas semanas. Na semana de 11 de fevereiro, a região Niño 1+2 já apresentava anomalia positiva de +0,7°C. O “bolsão” de águas subsuperficiais mais frias praticamente desapareceu, dando lugar a uma extensa área de anomalias positivas, que começam a emergir na superfície, especialmente próximo à costa oeste da América do Sul.
Para o curto e médio prazo, os modelos climáticos ainda indicam restrição de chuva em boa parte do Estado. O consenso do IRI (International Research Institute for Climate and Society) aponta déficit de precipitação para quase todo o RS, com pior cenário para o Noroeste. Na Zona Sul e em áreas do Leste, a tendência é de volumes próximos da média. O modelo CFSv2, da NOAA, também projeta chuvas abaixo da Normal Climatológica (NC) em grande parte do RS em março e abril, com exceção do Sul e do Leste; em maio, a tendência é de precipitações mais próximas da normalidade.
O modelo do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) vai na mesma direção: em março, a maior parte do Estado deve registrar acumulados em torno da média histórica, com possibilidade de valores abaixo da NC na faixa Leste e no extremo Norte. Para abril, o prognóstico é de chuvas abaixo da normal climática em todo o RS. Em maio, a previsão é de normalidade na maior parte das regiões, com possibilidade de volumes acima da média no Noroeste, no Norte, em áreas do Centro e do extremo Sul.
“Embora ainda haja resquícios do resfriamento, o fim da La Niña está muito próximo de ser oficializado pela NOAA, provavelmente já na próxima atualização, no começo de março”, projeta Jossana.
No campo, o reflexo dessa configuração são as chamadas chuvas “manchadas”: distribuição muito irregular, com áreas que enfrentam períodos críticos de falta de precipitação e outras que conseguem escapar do pior. “Neste verão, o RS teve episódios de chuva muito irregulares. Nos próximos meses ainda podem ocorrer curtos períodos de estiagem, mas a expectativa é de que, gradualmente, as precipitações voltem a se tornar mais regulares, ao mesmo tempo em que começaremos a sentir as primeiras massas de ar frio típicas do outono”, avalia.
A meteorologista lembra que, no trimestre em curso, os produtores estarão em plena colheita do arroz irrigado e da soja e recomenda atenção redobrada ao tempo. “É fundamental priorizar as janelas de tempo seco para a colheita, reduzindo o risco de perdas por excesso de chuva e temporais”, orienta. Ela reforça a importância de acompanhar de forma sistemática as previsões de curto prazo, entre sete e 15 dias, e também os boletins climáticos sazonais, para planejar melhor as operações e entender como a evolução do Pacífico deve influenciar o regime de chuvas no RS.




