Soja em 2026: entre estabilidade e desafios
Este artigo foi escrito a partir de análise feita com as informações existentes até o início da segunda quinzena de janeiro de 2026. Neste momento, o quadro do mercado da soja indica que, diante de uma safra 2025/26 caminhando para a normalidade no Brasil — embora a colheita apenas tenha começado —, os preços da oleaginosa no país devem se manter estáveis, com leve viés de baixa, pelo menos no primeiro semestre. Afinal, a produção brasileira deverá atingir um novo recorde, entre 176 milhões de toneladas (cf. Conab) e 178 milhões (cf. Usda), enquanto o Rio Grande do Sul voltará a ter uma safra cheia, ao redor de 21,4 milhões de toneladas (cf. Emater).
Esse quadro ajuda a segurar as cotações em Chicago, as quais também estão sendo influenciadas por uma colheita argentina que pode beirar os 50 milhões de toneladas e pela paraguaia, esperada em torno de 11 milhões (cf. Usda), levando o total da América do Sul para 242 milhões de toneladas no corrente ano comercial, contra cerca de 238 milhões na safra anterior. Segundo o último relatório do United States Department of Agriculture (Usda, janeiro de 2026), com tal performance, a produção mundial de soja alcançará 425,7 milhões de toneladas no corrente ano, contra 427,2 milhões um ano antes.
Essa equena variação para menos, todavia, não evitará que os estoques finais mundiais aumentem para 124,4 milhões de toneladas, contra 123,4 milhões um ano antes. Já a demanda global, mesmo com a China indicando importações de 112 milhões de toneladas, deverá ficar em torno de 423,1 milhões de toneladas, portanto, abaixo da produção.
Tal tendência, somada ao início da colheita sul-americana e às dificuldades comerciais impostas pelo “tarifaço” de Donald Trump ao mundo, assim como suas recentes ameaças geopolíticas, fez o valor do bushel de soja recuar nos últimos dois meses em Chicago. Após o mês de novembro/25 atingir a média de US$ 11,23 — o mais alto valor desde a média de junho/24 —, o mês de dezembro/25 registrou a média de US$ 10,76, tendo o corrente mês de janeiro/26 chegado a bater em US$ 10,23. A média dos primeiros treze dias úteis de janeiro (encerrados em 21/01) chegou a US$ 10,44/bushel.
Ou seja, nos últimos 45 dias úteis, a partir da média de novembro passado, o bushel de soja em Chicago perdeu quase um dólar. Soma-se a isso a redução dos prêmios nos portos brasileiros — os quais podem atingir valores negativos no auge de nossa colheita — e um câmbio que gira ao redor de R$ 5,30 na terceira semana de janeiro/26, e o quadro está montado para preços de R$ 120,00/saca no balcão gaúcho. Preços estes que, entre uma oscilação e outra, praticamente assim permaneceram em quase todo o ano de 2025.
No Mato Grosso, principal produtor nacional, os valores oscilavam, em 21 de janeiro, entre R$ 103,00 e R$ 110,00/saca, dependendo da região. Assim, no conjunto do país, iniciamos 2026 com preços baixos e pressionados. Um ano atrás, o balcão gaúcho praticava a média de R$ 128,50/saca nas principais praças locais, e o Mato Grosso oscilava entre R$ 108,00 e R$ 117,00/saca. Embora haja espaço para novos recuos em 2026, tal movimento tem limites. Afinal, os desafios serão grandes para a economia global, podendo influenciar as cotações da soja.
Em primeiro lugar, as ações do presidente dos Estados Unidos da América vêm deixando o mundo em alerta e cada vez mais preocupado, fato que mexe com os preços em geral e com o do petróleo em particular (isso afeta os preços do óleo de soja, cuja libra-peso, em Chicago, atingiu 54,01 centavos de dólar no dia 21/01/2026, contra 45,77 centavos um ano atrás). Essas mesmas ações mexem com o câmbio, pois o dólar é atingido mundo afora.
Além disso, no Brasil, a redução da Selic, mesmo que venha a ser pequena durante o ano, e as eleições presidenciais em outubro de 2026 devem pressionar para uma desvalorização do real, fato que ajudaria a melhorar o preço da soja exportada, particularmente no segundo semestre. Ainda por aqui, os gastos públicos deverão aumentar neste ano de eleição, gerando maior déficit fiscal e comprometendo ainda mais o arcabouço fiscal. Isso tende a ser fator inflacionário, atingindo o câmbio. Obviamente, o resultado disso dependerá de como o Banco Central se comportará diante de tal quadro.
Enfim, atenção ao clima sobre a futura safra estadunidense, que transcorre entre maio e outubro, sendo que problemas em sua produtividade média tendem a pressionar Chicago para cima.
Em síntese, pelo lado da oferta e da demanda global de soja, o mercado da oleaginosa é de estável para baixista neste início de 2026, devendo, na melhor das hipóteses, manter os preços médios praticados no ano passado. Mas, pelo lado dos fatores econômicos, geopolíticos e fiscais, os desafios se mostram imensos e mais imprevisíveis, tendo potencial para elevar o preço mundial das commodities, incluindo a soja. Lembrando que esses últimos fatores também alteram os custos de produção, geralmente para cima.
Portanto, estamos diante de mais um ano que exige muita cautela, contabilidade e racionalidade no gerenciamento das propriedades rurais, em geral, e na comercialização da soja, em particular.
Argemiro Luís Brum
Doutor em Economia Internacional, coordenador da Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário (CEEMA/PPGDR/UNIJUI).

