Soja: preços no brasil se descolam do mercado internacional
Guerra no Oriente Médio, valorização do real e safra recorde brasileira explicam cenário atípico no mercado da oleaginosa
Existem constatações importantes no atual comportamento do mercado da soja.
Em primeiro lugar, enquanto a cotação da oleaginosa sobe em Chicago, batendo acima dos US$ 12,00/bushel em meados de maio/26 (atingindo o mais alto nível em dois anos), o preço interno da commodity recua no Brasil, chegando ao redor de R$ 112,00/saco nas principais praças gaúchas, por exemplo, e entre R$ 100,00 a R$ 115,00/saco nas principais praças nacionais.
Um ano atrás, enquanto Chicago registrava valores entre US$ 10,60 e US$ 10,70/bushel, o preço interno no Brasil girava em torno de R$ 120,00/saco nas principais praças gaúchas e entre R$ 104,00 e R$ 124,00/saco no restante do país.
Ou seja, os preços no Brasil se descolaram de Chicago, para baixo.
Em segundo lugar, nota-se que o principal elemento causador deste comportamento tem sido a guerra no Oriente Médio entre EUA/Israel x Irã. O confronto está, no momento, com maior influência sobre as cotações da soja do que os próprios relatórios de oferta e demanda do USDA.
Tanto é verdade que o relatório do dia 12 de maio/26 indicou um aumento na área semeada com soja nos EUA em 4,3%, o que leva a projeção de produção final, para 2026/27, naquele país, para 120,7 milhões de toneladas (colheita em outubro/novembro) em clima normal, contra 116,0 milhões no último ano, porém, as cotações da oleaginosa continuaram subindo em Chicago.
A redução nos estoques finais estadunidenses de 9,2 para 8,4 milhões de toneladas entre 2025/26 e 2026/27 é muito pequena para explicar tal comportamento.
Agora, a continuidade do confronto bélico no Oriente Médio, centro da produção mundial de petróleo, com fechamentos constantes no Estreito de Ormuz sim, tem forte efeito sobre a soja e seus derivados.
O óleo de soja, que oscila ao sabor das variações das cotações do petróleo no mercado mundial, tem ajudado a puxar o grão. E o farelo tem ido a reboque, alimentado por problemas logísticos na Argentina, principal exportador mundial dos dois subprodutos.
A evidência disso é que o óleo de soja chegou a bater em uma de suas mais altas cotações da história no início de maio/26, ao registrar 78,40 centavos de dólar por libra-peso. Um ano antes ele estava em 48,37 centavos. Ou seja, em 12 meses a libra-peso do óleo de soja ganhou pouco mais de 62% em Chicago, sendo que grande parte disso se deu entre março e maio do corrente ano, momento da referida guerra.
No mesmo espaço de tempo, o farelo ganhou 12,6%. Assim, não surpreende que o grão tenha saído de US$ 10,66 para US$ 12,13/bushel no período (+ 13,8%).
Petróleo, guerra e volatilidade
Em terceiro lugar, isso permite inferir que, em o clima sendo positivo nos EUA e a produção indicada se confirmar, quando a guerra terminar (e os EUA vêm tentando isso há algumas semanas), o bushel do grão deve baixar, seguindo a tendência das demais commodities, em especial o petróleo.
Claro, outros elementos estão no jogo, mas este alerta não pode ser ignorado.
Em quarto lugar, e talvez o ponto mais importante, está no porquê de os preços brasileiros da soja caminharem na direção contrária a Chicago, algo pouco comum.
Considerando o prêmio em patamares relativamente similares no mês de maio dos dois anos analisados, o terceiro elemento que compõe a formação do preço da soja no país parece ser o diferencial, no caso o câmbio.
Efetivamente, em meados de maio do ano passado o câmbio, no Brasil, registrava R$ 5,68 por dólar, enquanto no mesmo período de 2026 tem-se R$ 4,89.
Ou seja, temos uma valorização do Real, em 12 meses, de 13,9%.
Safra recorde amplia pressão sobre preços internos
Soma-se a isso a safra recorde que o país está terminando de colher (algo entre 178 e 181 milhões de toneladas), na medida em que as perdas no Rio Grande do Sul foram compensadas por maior produção em outras regiões do país, e o quadro explica em grande parte o descolamento dos preços.
Para se ter uma ideia dessa relação, aos valores de hoje em Chicago, se o câmbio fosse o mesmo de um ano atrás, o saco do produto, no Rio Grande do Sul, estaria ao redor de R$ 130,00.
Ou seja, 18 reais a mais.
Enfim, ao colocarmos a evolução proporcional dos custos de produção, do plantio até a colheita, entre as duas safras, se cristaliza a perda de renda média junto aos produtores brasileiros em geral e os gaúchos, em particular, sobretudo neste último caso onde as perdas no volume produzido, entre o esperado e o realizado, oscila entre 13% e 20%.
Tal quadro aponta para uma futura safra novamente com muita cautela e gestão.
Principais fatores do descolamento entre Chicago e Brasil
– Guerra no Oriente Médio elevando petróleo e óleo de soja
– Alta histórica do óleo de soja em Chicago
– Valorização do real frente ao dólar
– Safra recorde brasileira entre 178 e 181 milhões de toneladas
– Problemas logísticos na Argentina sustentando farelo
– Redução da competitividade dos preços internos ao produtor
Argemiro Luís Brum¹
Professor titular junto ao PPGDR (mestrado e doutorado) da UNIJUI, doutor em Economia Internacional pela EHESS (Paris-França), coordenador da Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário (CEEMA/PPGDR/UNIJUI).
